Friday, May 26, 2017


                        ENTRE EU E O INVISÍVEL

Dizem que Existem dois assuntos que devemos evitar comentar, Religião e Política. Isso porque separa, divide e confronta.

 Falar sobre fé é assunto delicado. Cada um escolhe seu caminho naquele lugar onde a alma senta, se refresca, se renova, e se realiza.  Somos todos tão diferentes e únicos, que às vezes nem a gente se entende... mas sente.

 Uma vida sem o mistério e a magia de acreditar no invisível, nos milagres inexplicáveis do dia a dia, nas coincidências impossíveis de serem meras coincidências, sem interpretar sinais como vindos do além, sem sentir a fé que me move,  e remove montanhas...pra mim, acaba ficando muito nítido, real e sem graça.

A fé é assim, ou voce sente ou não, é como outro sentimento qualquer, como a saudade, a compaixão, o amor etc...  são sentimentos que vem sem a gente controlar.  A fé simplesmente se manifesta assim, simples e presente num momento de sintonia, em um templo ou na espantosa beleza da natureza, na vontade de falar com um mundo invisivel, na dor ou no prazer, na intuição que vem de repente, nao sei de onde, trazendo respostas e possibilidades, a Santa clareza da fé manifestada.

 Para se ter fé, há de se ter imaginação, mistério e poesia. Há de se ter um coração aberto e acreditar no invisível.

 Posso falar com Deus quando a lua ilumina as montanhas, o mar, e meu quintal e consequentemente minha alma.  Mas para outros, a lua não passa do único satelite natural da terra e o quinto maior do sistema solar que ilumina a superficie escura da terra.  

Parece que entre eu e Deus existem milhares de fios luz. Cada um carregando um sentimento, uma palavra ou uma noção qualquer. Ou carregando nada. Mas estão ali, todos eles, esses fios de fé...que me ajudam  a viver.

 

 

Wednesday, May 3, 2017



                        SENTADA COM A ALMA JUNTO

Hoje quando me sentei no sofa, admirei a vista da minha janela e senti que não só meu corpo, mas minha alma estava sentada também. São aquelas sentadas que não vem sempre. Normalmente meu corpo se senta, mas minha alma parece que fica em pé, muitas vêzes até pulando. São pensamentos, preocupacões, antecipacões, programacões, ( um monte de ões). E ela agitada, se recusa a sentar. Mas hoje foi diferente, ela se sentou e eu nem notei a prinicipio. É aquela sentada  quando tudo parece estar no lugar certo, quando não temos muito que buscar a não ser o momento presente. É quando a preocupacão com qualquer assunto não se manifesta, a ansiedade pela resolucão de um desafio não tem importância, o stress das contas e o resultado de exames não estão na mesa.

 Isso muitas vezes acontece depois de longas fases de luta, que duram semanas, meses ou até anos, fases que parecem que não vão terminar nunca, e um belo dia, a pagina vira e aquele  capitulo se encerra. Aquelas interminaveis virgulas enfim se tornam  ponto final.

Wednesday, June 10, 2015


Quero ser agua



Quero ser agua

Ser ar para peixes

Ser suave para o deslisar dos patos

Ser vida para plantas e flores aquaticas

Ser o reflexo da lua para os romanticos

Ser refresco para corpos calorentos

Ser espelho para arvores e nuvens

Quero ser agua que mexe

Que ondula

Que sussura

Que adormece em silencio

Guardando segredos no fundo de mim

 

Tuesday, February 24, 2015


        

          SE MEUS OLHOS PUDESSEM VER NA ESCURIDÃO

 Ao ver uma foto clara do fundo do mar embaixo de uma onda que deslizava seu destino a caminho da praia, fiquei surpresa com  tamanha beleza e me lembrei das tantas vezes que, com o coração acelerado, mergulhei embaixo de enormes ondas nas praias do Rio. Nunca abri os olhos la em baixo, portanto nunca vi a beleza e a paz do fundo do mar enquanto a onda passava por cima de mim. Deitava todo o meu corpo no fundo, de forma a ficar com minha barriga toda encostando na areia. E lá em baixo era escuridão. E vinha da alma uma pequena prece – Me ajuda meu Deus ! Dava medo, muito medo, e fico pensando como a gente tem coragem quando jovens. E por fim a onda passava sem me embrulhar, e eu subia a tona feliz, e respirava aliviada por alguns segundos até perceber uma onda ainda maior marolando adiante. Sempre ouvi dizer que as grandes ondas vêm em 3, assim como a morte de pessoas que conhecemos, e logo aprendi que era verdade sim.  Depois da terceira onda, eu nadava lá pra fora, e agora sim, era só marola, onde não mais seria apanhada de surpesa por uma gigantesca onda. Estava agora na zona de proteção. Boiava, nadava , mergulhava como um golfinho feliz. Mas sempre tinha a volta. Ai a volta!  Para retornar a praia eu tinha que passar pela zona das grandes ondas.

   Desfrutar a maioria dos grandes prazeres da vida requer retorno, como voltar a praia depois do mergulho, tem riscos, como se embrulhar na onda e beber muita agua salgada, mas tem o lembrar pra sempre, que faz os riscos valerem a pena.

Assim como mergulhar no fundo do mar,  penso que ficaria surpresa com a  beleza e poesia ao redor em momentos de medo que passamos pela vida. Mas se ao menos, no meio da escuridão, eu pudesse abrir os olhos.

Wednesday, September 24, 2014

REALIDADE SEM POESIA


                             Preciso prestar bem atenção, para que devagarinho e sorrateiramente a realidade não comece a deslizar para aquele lugar onde não há  poesia. Então me encontro nesse mundo preto e branco, onde pão é pão e queijo é queijo. Muito perigoso isso. Correntes, essas malditas correntes invisíveis, que aos poucos me amarram inteira, fazendo a poesia escorregar,  se fazendo quase que ausente, enquanto a realidade  impõe suas demandas. E eu nem sinto. Quando vejo, ja estou lá.

Resgatar a poesia requer puxar a qualquer custo a magia de existir de dentro do cotidiano, observar os tantos detalhes, considerar o inexplicável, mudar de idéias, me refazer a cada dia evitando assim aquele velho padrão que me mantém refém da minha personalidade, dos meus habitos e da rotina que me engole em afazeres intermináveis, que penso ser tão importantes, e ainda minha mente acredita.

Tirar a bola congelada no tempo, e jogá-la para o alto e esperar voltar, descongelar a criança e deixa-lá solta, sem limites. Andar na chuva e ver a poça, mas também a árvore refletida nela. Ver a árvore, mas procurar o pássaro que se esconde em suas folhas. Olhar o céu e ver as formas engraçadas que as nuvens fazem, os desenhos que formam, e ver as plantas de boca aberta esperando suas águas. Ver o simples no complicado. Ver o jovem rapaz no rosto envelhecido do meu companheiro, bem ali atras daquelas rugas do tempo. E conectar com ele.

A poesia se camufla em toda parte, se esconde como criança brincando, e cabe a mim prestar atenção, para não ignorar suas peraltices e me render as ilusões da realidade.

Tuesday, July 22, 2014

DEJAVOANDO

                          

           Na velocidade de um raio, um jato ou um um tiro, certas canções podem  me levar a pessoas ou lugares exatos, com a precisão de uma bússola e com  detalhes de um filme, assustador até. Passado recente ou passado tipo outra encarnacão, não importa, tudo volta.

          Old Love, Eric Clapton Unplugged. Pronto. Sem querer  gostar ou não, estou  agora  na cozinha do Mario em Friburgo, na casa grande, que era dos pais dele, sentada no chão de jeans e camiseta, abraçando minhas pernas. O dia estava quente, me lembro bem porque quando faz frio em Friburgo a gente não esquece.

        Pela primeira vez ouvi essa canção enquanto rolava em seu  toca fitas,  e foi amor à primeira ouvida. São aquelas canções que tem o poder de tornar qualquer ambiente em romântico, pode ser até o chão da cozinha da mãe do Mario. Deslisa gostoso na velocidade exata de um beijo de língua. As flores brotavam no quintal, o céu estava azul e brincávamos de namorados.

        Um fim de semana de amor, de conversas nem sempre reais e absolutas, eram papos nebulosos, talvez pela cerveja,  talvez porque sonhavamos demais ou porque refletia a falta de nitidez na nossa relação confusa. Equilibravámos entre aquela fina linha entre amigos e amantes, sem nunca sabermos pra onde íamos, o que queríamos ou se éramos mais do que isso.  Talvez fôssemos , mas apenas por alguns momentos, ou algumas horas, até dias mas - nada mais. Suspeitava que era a distancia física entre nós, mas aos poucos fui reparando que a distancia de almas era bem maior que a distância entre o Rio e Friburgo.

       Hoje dirigindo em meu Jeep, voltando da praia, na Florida, revivi com detalhes esses momentos preciosos trazidos por essa canção. No último acorde da musica, o passado desapareceu, e a realidade voltou para a triste ausencia deste pianista que assim de repente deixou de existir. Foi levado dentro da sua casa em Friburgo, por uma avalanche  em uma madrugada de janeiro de 2012 causado por fortes chuvas. O que restou desta tragédia foi seu carro e uma cachorra. Todo o resto que compunha sua vida foi com ele. Nenhuma lembrança material,  só aquelas lembrancas que ficaram gravadas nas almas de tantas pessoas que passaram pela sua vida. Desde de que se foi, sonhei com ele uma vez, mas não era ele fisicamente, e sim o som dos seus dedos atarefados atravessando o universo de um teclado, e uma presença  invisível inconfundível. Acordei sabendo com certeza de que em algum lugar ele ainda existia.  Assim como um raio fulminante, um jato de água fria, ou um tiro certeiro o passado não pede licença, invade como um espírito vagante,  sempre à espreita, esperando o momento certo pra se apossar de mim.