Wednesday, September 24, 2014

REALIDADE SEM POESIA


                             Preciso prestar bem atenção, para que devagarinho e sorrateiramente a realidade não comece a deslizar para aquele lugar onde não há  poesia. Então me encontro nesse mundo preto e branco, onde pão é pão e queijo é queijo. Muito perigoso isso. Correntes, essas malditas correntes invisíveis, que aos poucos me amarram inteira, fazendo a poesia escorregar,  se fazendo quase que ausente, enquanto a realidade  impõe suas demandas. E eu nem sinto. Quando vejo, ja estou lá.

Resgatar a poesia requer puxar a qualquer custo a magia de existir de dentro do cotidiano, observar os tantos detalhes, considerar o inexplicável, mudar de idéias, me refazer a cada dia evitando assim aquele velho padrão que me mantém refém da minha personalidade, dos meus habitos e da rotina que me engole em afazeres intermináveis, que penso ser tão importantes, e ainda minha mente acredita.

Tirar a bola congelada no tempo, e jogá-la para o alto e esperar voltar, descongelar a criança e deixa-lá solta, sem limites. Andar na chuva e ver a poça, mas também a árvore refletida nela. Ver a árvore, mas procurar o pássaro que se esconde em suas folhas. Olhar o céu e ver as formas engraçadas que as nuvens fazem, os desenhos que formam, e ver as plantas de boca aberta esperando suas águas. Ver o simples no complicado. Ver o jovem rapaz no rosto envelhecido do meu companheiro, bem ali atras daquelas rugas do tempo. E conectar com ele.

A poesia se camufla em toda parte, se esconde como criança brincando, e cabe a mim prestar atenção, para não ignorar suas peraltices e me render as ilusões da realidade.

Tuesday, July 22, 2014

DEJAVOANDO

                          

           Na velocidade de um raio, um jato ou um um tiro, certas canções podem  me levar a pessoas ou lugares exatos, com a precisão de uma bússola e com  detalhes de um filme, assustador até. Passado recente ou passado tipo outra encarnacão, não importa, tudo volta.

          Old Love, Eric Clapton Unplugged. Pronto. Sem querer  gostar ou não, estou  agora  na cozinha do Mario em Friburgo, na casa grande, que era dos pais dele, sentada no chão de jeans e camiseta, abraçando minhas pernas. O dia estava quente, me lembro bem porque quando faz frio em Friburgo a gente não esquece.

        Pela primeira vez ouvi essa canção enquanto rolava em seu  toca fitas,  e foi amor à primeira ouvida. São aquelas canções que tem o poder de tornar qualquer ambiente em romântico, pode ser até o chão da cozinha da mãe do Mario. Deslisa gostoso na velocidade exata de um beijo de língua. As flores brotavam no quintal, o céu estava azul e brincávamos de namorados.

        Um fim de semana de amor, de conversas nem sempre reais e absolutas, eram papos nebulosos, talvez pela cerveja,  talvez porque sonhavamos demais ou porque refletia a falta de nitidez na nossa relação confusa. Equilibravámos entre aquela fina linha entre amigos e amantes, sem nunca sabermos pra onde íamos, o que queríamos ou se éramos mais do que isso.  Talvez fôssemos , mas apenas por alguns momentos, ou algumas horas, até dias mas - nada mais. Suspeitava que era a distancia física entre nós, mas aos poucos fui reparando que a distancia de almas era bem maior que a distância entre o Rio e Friburgo.

       Hoje dirigindo em meu Jeep, voltando da praia, na Florida, revivi com detalhes esses momentos preciosos trazidos por essa canção. No último acorde da musica, o passado desapareceu, e a realidade voltou para a triste ausencia deste pianista que assim de repente deixou de existir. Foi levado dentro da sua casa em Friburgo, por uma avalanche  em uma madrugada de janeiro de 2012 causado por fortes chuvas. O que restou desta tragédia foi seu carro e uma cachorra. Todo o resto que compunha sua vida foi com ele. Nenhuma lembrança material,  só aquelas lembrancas que ficaram gravadas nas almas de tantas pessoas que passaram pela sua vida. Desde de que se foi, sonhei com ele uma vez, mas não era ele fisicamente, e sim o som dos seus dedos atarefados atravessando o universo de um teclado, e uma presença  invisível inconfundível. Acordei sabendo com certeza de que em algum lugar ele ainda existia.  Assim como um raio fulminante, um jato de água fria, ou um tiro certeiro o passado não pede licença, invade como um espírito vagante,  sempre à espreita, esperando o momento certo pra se apossar de mim.