Preciso prestar bem atenção, para que devagarinho e sorrateiramente a realidade não comece a deslizar para
aquele lugar onde não há poesia. Então
me encontro nesse mundo preto e branco, onde pão é pão e queijo é queijo. Muito
perigoso isso. Correntes, essas malditas correntes invisíveis, que aos poucos me
amarram inteira, fazendo a poesia escorregar,
se fazendo quase que ausente, enquanto a realidade impõe suas demandas. E eu nem sinto. Quando
vejo, ja estou lá.
Resgatar a poesia requer puxar a qualquer custo a magia de existir de
dentro do cotidiano, observar os tantos detalhes, considerar o inexplicável,
mudar de idéias, me refazer a cada dia evitando assim aquele velho padrão que
me mantém refém da minha personalidade, dos meus habitos e da rotina que me
engole em afazeres intermináveis, que penso ser tão importantes, e ainda minha
mente acredita.
Tirar a bola congelada no tempo, e jogá-la para o alto e esperar voltar,
descongelar a criança e deixa-lá solta, sem limites. Andar na chuva e ver a
poça, mas também a árvore refletida nela. Ver a árvore, mas procurar o pássaro
que se esconde em suas folhas. Olhar o céu e ver as formas engraçadas que as
nuvens fazem, os desenhos que formam, e ver as plantas de boca aberta esperando
suas águas. Ver o simples no complicado. Ver o jovem rapaz no rosto envelhecido
do meu companheiro, bem ali atras daquelas rugas do tempo. E conectar com ele.
A poesia se camufla em toda parte, se esconde como criança brincando, e
cabe a mim prestar atenção, para não ignorar suas peraltices e me render as
ilusões da realidade.