Na velocidade de um raio, um jato ou um um
tiro, certas canções podem me levar a pessoas
ou lugares exatos, com a precisão de uma bússola e com detalhes de um filme, assustador até. Passado
recente ou passado tipo outra encarnacão, não importa, tudo volta.
Old Love, Eric Clapton Unplugged. Pronto. Sem querer gostar ou não, estou agora na cozinha do Mario em Friburgo, na casa
grande, que era dos pais dele, sentada no chão de jeans e camiseta, abraçando
minhas pernas. O dia estava quente, me lembro bem porque quando faz frio em
Friburgo a gente não esquece.
Pela
primeira vez ouvi essa canção enquanto rolava em seu toca fitas, e foi amor à primeira ouvida. São aquelas canções
que tem o poder de tornar qualquer ambiente em romântico, pode ser até o chão da cozinha da mãe do
Mario. Deslisa gostoso na velocidade exata de um beijo de língua. As flores
brotavam no quintal, o céu estava azul e brincávamos de namorados.
Um fim de semana de amor, de conversas nem
sempre reais e absolutas, eram papos nebulosos, talvez pela cerveja, talvez porque sonhavamos demais ou porque
refletia a falta de nitidez na nossa relação confusa. Equilibravámos entre aquela fina linha entre
amigos e amantes, sem nunca sabermos pra onde íamos, o que queríamos ou se éramos
mais do que isso. Talvez fôssemos , mas apenas
por alguns momentos, ou algumas horas, até dias mas - nada mais. Suspeitava que era a distancia física entre nós, mas aos poucos fui reparando que a distancia
de almas era bem maior que a distância entre o Rio e Friburgo.
Hoje
dirigindo em meu Jeep, voltando da praia, na Florida, revivi com detalhes esses
momentos preciosos trazidos por essa canção. No último acorde da musica, o
passado desapareceu, e a realidade voltou para a triste ausencia deste pianista
que assim de repente deixou de existir. Foi levado dentro da sua casa em
Friburgo, por uma avalanche em uma
madrugada de janeiro de 2012 causado por fortes chuvas. O
que restou desta tragédia foi seu carro e uma cachorra. Todo o resto que
compunha sua vida foi com ele. Nenhuma lembrança material, só aquelas lembrancas que ficaram gravadas nas
almas de tantas pessoas que passaram pela sua vida. Desde de que se foi, sonhei
com ele uma vez, mas não era ele fisicamente, e sim o som dos seus dedos atarefados
atravessando o universo de um teclado, e uma presença invisível inconfundível. Acordei
sabendo com certeza de que em algum lugar ele ainda existia. Assim como um raio fulminante, um jato de água
fria, ou um tiro certeiro o passado não pede licença, invade como um espírito
vagante, sempre à espreita, esperando o
momento certo pra se apossar de mim.